quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Não consigo admirar o Abaporu



Por mais que eu tenha acompanhado durante oito anos os episódios de "House" e gostado de certas frases ditas pelo principal personagem, dentre as que não concordo tanto assim está a que afirma que "A ignorância é uma benção". 

Recentemente o Jornal Nacional divulgou uma notícia sobre o mais caro quadro brasileiro vendido : o Abaporu.

Sobre ele comentei em http://www.ynternix.com/abaporu-de-tarsila-do-amaral/ e, por mais que tenha enviado algumas retificações sobre a penúltima resposta que dei, o blogueiro de lá não as levou em conta, publicando somente o que achou conveniente. Desconheço o motivo, por isso, resolvi publicar tudo aqui.

Se qualquer um de nós pintasse uma coisa horrorosa como essa, diriam que foi feito por um deficiente mental sem qualquer grande habilidade artística. O retrato do “homem que come gente” é, na verdade, um misto de Pinóquio com icterícia e elefantíase, sentado em pleno serrado e sob um sol que mais parece um ovo frito. Muito pior é termos que mentir sobre tamanha “genialidade”, se quisermos ser aceitos como apreciadores da mais bela obra de arte que Tarsila produziu, a ponto de um imbecil arrematá-la por mais de 135 milhões de dólares.Eu não mandaria pintar isso nem mesmo no fundo de meu vaso sanitário. E se é a obra brasileira mais cara do mundo, imagino a pior como deve ser. Há muito grafiteiro e crianças de maternal que pintam melhor.

No meu fraco entender, quando se observa uma obra, seja ela pintura ou escultura, por exemplo, procuramos nos sensibilizar, sem que para isso haja necessidade de recorremos a um texto elucidativo (“muletas”, ou “legendas”), ou intérprete. Convenhamos : um artista quando necessita explicar com palavras sua obra é porque não conseguiu por ela se expressar adequadamente. Pode até convencer supostos especialistas sobre arte, mas não a mim,um modestíssimo apreciador.
Quando estive no Louvre, Capela Cistina etc, apreciei obras espetaculares de verdadeiros gênios. Comparações são inevitáveis. E por mais que estilos, épocas etc sejam diferentes, quadros a óleo, aquarelas etc são isso : quadros.

Mês passado o apartamento de Jean Boghici pegou fogo, causando-lhe enormes prejuízos. Sua preocupação foi com a gata (que morreu no incêndio), amiga e fiel companheira, que costumava dormir ao lado de sua cama. As obras para ele não tinham tanta importância como a pequena e estimada felina. Boghici, mais que ninguém, sabia com autoridade o que quis dizer.

Muito obrigado pela explanação. Hoje em dia, raramente nos deparamos com alguém que se mostra interessado pelo que, modestamente, externamos sobre qualquer assunto.
Saúde, muitas felicidades e um brinde a arte maior.

Um tal de Carlos, discordando de minha opinião, resolveu se pronunciar:

Sou muito feliz por existir pintoras corajosas como Tarsila além de uma pintora que refez a arte brasileira cheia de cópias e xerox, portanto, fez valorizar o Brasil, diferente de muitos idiotas que somente valorizam o estrangeiro, porque lhes falta provar da cultura nacional, que existe, apesar de que ignorantes não a conheçam, talvez, cegos de tanto ver pinturas clássicas, afinal, quando muitos conservadores do passado e de hoje, que somente conseguem ver o velho, ela via valor no novo, e, ouso dizer que como Elis Regina, a cantora genial, que dizia que ” quem ama o passado e não vê que novo sempre vê”. Essa artista que nos enobrece pela genialidade, parece que apesar de ter perdido tudo na vida, esposo, fortuna, filha, saúde, ao filnal ela ainda consegui ser muito caridosa dando auxilio a obra de outro genial ser humano: Chico Xavier. Deus se existir saberá lhe dar um lugar de destaque no céu pela incansável artista e digna mulher que foi Tarsila! Deveriam fazer um filme sobre esta mulher extraordinária e grande artista brasileira que valoriza a nossa arte e a fez ser respeitada mundialmente. Parabéns!

Minhas respostas :

Apelos para biografia de um ou outro artista apenas como meio de socorrê-lo e valorizar sua obra, pode até impressionar muita gente, porém jamais me comoverá. Considero um artifício – nem diria infantil -, porém por demais medíocre, indigno de comentários. Mas, já que se torna inevitável, vamos ao sacrifício.

Não conheço apenas a arte estrangeira como algum vidente, médium ou paranormal pode especular. Já fui a várias exposições por aqui, onde, certa vez, vi uma tela completamente em branco. “Pérola” escrita pelo “artista” para justificar sua “obra” : “O tudo e o nada. Nela o observador poderá imaginar, projetar, visualizar o que bem entender”. Não foi mesmo “corajoso, criativo, e genial” esse cara?! Não sei como ainda não obteve semelhante reputação de tantos enaltecidos por endinheirados e os que se julgam experts no assunto. Vai ver que até mesmo uns e outros emudeceram diante dela, aguardando o providencial help de um marchand. A propósito: Não li qualquer comentário de entendidos sobre o que disse Jean Boghici à imprensa. Por que será?

Valorizo e muito, por exemplo, as pinturas expostas na ABBR (Rua Jardim Botânico, 660, Rio de Janeiro), não apenas porque foram feitas com os pés ou boca de deficientes físicos (muito superiores a tantas de não-deficientes), mas porque são de fato verdadeiras obras de arte, não a grande merda que é o queridinho e valorizado “Abaporu”, que tanto encanta os que se julgam mais do que entendidos por sua “genial beleza”. Reconheço que sou parte da modesta minoria que se recusa a jogar para a torcida feliz da vida para dela facilmente receber apoio e aplausos efusivos.

Reconheço também que gosto não se discute e que, certamente, é sempre mais seguro concordar e obter imediato sucesso quando incansavelmente repete-se o mesmo mantra e blábláblá de sempre. Ousar discordar e sustentar uma opinião de forma contundente nunca foi pra qualquer um.
A grande intérprete “Hélice Regina”, ou “Pimentinha”, e que por acaso possuo grande parte de seus discos e CDs, lamentavelmente não era tão popular como muitos imaginam, se comparada a outras intérpretes da época. Claro que não incorrerei no erro de medir sucesso por vendagem de discos que, segundo as próprias gravadoras, Gal, Bethânia, Clara Nunes a superavam nesse quesito. O “Rei”, por exemplo, sempre vendeu quatro vezes mais que todas juntas. Aliás, mesmo Milton, Chico, Ivan, Gonzaguinha, apesar da fama, também nunca venderam juntos ou individualmente mais do que ele. O mesmo se aplica a certos escritores que vendem menos que o “imortal” Paul Rabit com seu lulês irretocável. Então, não é mesmo por aí que a banda toca. Mas, aproveito para deixar links, visando a simples conferência sobre Elis, intérprete de “Mucuripe”, Velha Roupa Colorida” e “Como nossos pais”, de Belchior. Aliás, ela nunca disse a frase “quem ama o passado e não vê que novo sempre vê”. Limitou-se a regravar a canção – serei generoso – com algumas “licenças poéticas”, diga-se de passagem, pois se formos analisar com atenção o português de Belchior, encontraríamos um precursor de Collor ou de Lula. O compositor se fosse mesmo um amante de Filosofia e Humanidade, nunca diria levianamente que o passado é uma roupa que não nos serve mais. Mas, reconheço ser uma de suas inesquecíveis. Dele também colecionei LPs e Cds e de cor sei boa parte.
“27 LPs, catorze compactos simples e seis duplos, que venderam algo como 4 milhões de cópias. Não é um recorde – Roberto Carlos vendeu quatro vezes mais –, mas a qualidade é tão boa que lhe assegurou uma das mais sólidas reputações da “música” popular brasileira.

“Em vida não vendeu muitos discos, enquanto Maria Bethânia e Gal Costa chegavam ou ultrapassavam as 500 mil cópias, o último álbum em vida, “Elis”, vendeu pouco mais de 52 mil cópias”.

Lamentavelmente esses dados aqui foram publicados anonimamente e ninguém é obrigado a neles confiar, mas podem ser confrontados com outras fontes mais fidedignas:

Elis, talvez, tenha vendido até um pouquinho mais após sua morte, fenômeno natural e regra quase infalível que quase imediatamente ocorre, com fãs inconformados correndo para as lojas e esgotando os estoques, às vezes, até encalhados. Marilyn Monroe, James Dean, Elvis Presley, Bob Marley, Michael Jackson, Emy Winehouse e tantos outros são provas disso. Muitos artistas, incluindo escritores, pintores e escultores acabam sendo ainda bem mais valorizados após a morte, independente da beleza de suas obras.

Alguns parecem, ou fingem desconhecer que nem sempre algo novo é realmente garantia de ser melhor do que o antigo, ou é aceito como tal ao menos pela maioria. Fosse indiscutível regra, a maior parte dos consumidores imediatamente teria migrado, por exemplo, das fitas VHS para as Betamax (da Sony) que, segundo até os especialistas, eram de qualidade anos luz superior em termos de som e imagem (http://pt.wikipedia.org/wiki/Betamax). Venceu a preferência do teimoso, acomodado e idiota consumidor, que se recusou a remar contra a corrente e a guerra dos formatos. Ele continuou optando pela pioneira com menos tecnologia e, portanto, qualidade inferior. Depois vieram outras cada vez mais avançadas, sofisticadas, fazendo finalmente com que a ficha caísse, forçando a migração para o DVD. Porém, até mesmo DVDs e Blue-Rays já estão com os dias contados, sendo substituído por outras tecnologias (http://www.estadao.com.br/noticias/tecnologia,apos-escolha-do-blu-ray-players-de-dvd-tem-os-dias-contados,131493,0.htm ). O mesmo ocorreu com os CDs ao prometerem qualidade superior aos velhos LPs. Com as lâmpadas incandescentes e fluorescentes ocorre o mesmo. Rapidamente estão sendo substituídas pelas de LED. Sob o argumento de economia de energia nosso governo determinou que até 2016 o país não mais fabricará lâmpadas incandescentes (http://www.call-construtora.com.br/blog/arquivos/fim-da-producao-de-lampadas-incandescentes-nao-exigira-troca-de-soquetes/ ).

Só idiotas e ignorantes resistirão até onde puderem ao sinal dos tempos. Portanto, diferentemente do que podem imaginar, humildemente reconheço que o novo sempre venha. É preciso ser, então, mais que cara de pau, um xenófobo e pseudo nacionalista para apontar no outro as próprias qualidades. Quem fala ou apenas defende a cultura nacional, como se fosse a máxima impecável do universo, demonstra, no mínimo, limitação cognitiva. Mas, isso também tornou-se popular na era do politicamente correto. É lamentável, mas fazer o quê?

Quanto a Chico Xavier: trata-se de outro assunto polêmico, envolvendo fé que, conforme o jornalista Henry Louis Mencken, não passa de crença ilógica na ocorrência do improvável. Não convém tocar no assunto, portanto, quem tem dúvida sobre a existência de Deus, ou quem não quiser ler outra visão nada lisonjeira sobre o “médium”.

Aqui as retificações somadas a outras informações:

Antes de mais nada retifico:
1º.) faltaram aspas após “música popular brasileira”;
2º.) não há o segundo “quase” na frase “Elis, talvez, tenha vendido até um pouquinho mais após sua morte, fenômeno natural e regra quase infalível que quase imediatamente ocorre[...]”;
3º.) Há uma vírgula após a palavra consumidor e um erre em formatos :“Venceu a preferência do teimoso, acomodado e idiota consumidor, que se recusou a remar contra a corrente e a guerra dos formatos.”

Dito isso, vamos ao que realmente interessa.

“Os elementos que constam da tela, especialmente a inusitada figura, despertaram em Oswald a ideia de criação do Movimento Antropofágico. O Movimento consistia na deglutição da cultura estrangeira, incorporando-a na realidade brasileira para dar origem a uma nova cultura transformada, moderna e representativa da nossa cultura”.

“ Este é o quadro mais importante já produzido no Brasil. Tarsila pintou um quadro para dar de presente para o escritor Oswald de Andrade, seu marido na época. Quando viu a tela, assustou-se e chamou seu amigo, o também escritor Raul Bopp. Ficaram olhando aquela figura estranha e acharam que ela representava algo de excepcional. Tarsila lembrou-se então de seu dicionário tupi-guarani e batizaram o quadro como Abaporu (o homem que come). Foi aí que Oswald escreveu o Manifesto Antropófago e criaram o Movimento Antropofágico, com a intenção de “deglutir” a cultura européia e transformá-la em algo bem brasileiro. Este Movimento, apesar de radical, foi muito importante para a arte brasileira e significou uma síntese do Movimento Modernista brasileiro, que queria modernizar a nossa cultura, mas de um modo bem brasileiro”

“Essa representação, sugere o homem plantado na terra. É a figura de pés grandes, plantados no chão brasileiro, sugerindo a idéia da terra, do homem nativo, selvagem, antropófago, como o próprio nome Abaporu indica, em sua tradução, do tupi-guarani, homem que come carne humana.” Observe-se que o autor do texto diz ainda, sem citar nomes, que alguns críticos sugerem que essa merda seria uma reescritura do Pensador, de Godin. Constata-se que a loucura é um direito garantido a todos, especialmente críticos de arte. Comparar “O Pensador” – ainda que levemente – com esse lixo é mesmo de lascar.
“A intensa relação amorosa e intelectual com Oswald fez Tarsila pintar, em 1928, Abaporu (“homem que come carne humana”, em tupi). O quadro impressionou tanto Oswald que serviu como mote para o Movimento Atropofágico, nome dado a segunda fase de Tarsila, que “deglutiu” ainda mais radicalmente referências culturais estrangeiras em um ambiente brasileiro”.

Vejamos as palavras pra lá de reveladoras e definitivas de Tarsila, que acabam de uma vez por todas com qualquer interpretação pretenciosa de terceiros: “Quando uma de suas amigas diz que suas pinturas antropofágicas lembravam-lhe pesadelos, Tarsila então identifica a origem de sua pintura desta fase: “Só então compreendi eu mesma que havia realizado imagens subconscientes sugeridas por histórias que ouvira quando criança, contadas na hora de dormir pelas velhas negras da fazenda. Segui apenas numa inspiração, sem nunca prever os seus resultados”. Aquela figura monstruosa, de pés enormes, plantados no chão brasileiro ao lado de um cacto, sugeriu a Oswald de Andrade a idéia da terra, do homem nativo, selvagem, antropofágico… (Amaral, Aracy apud Azevedo).

Concluímos, então, sem qualquer margem de dúvidas, que o Oswald de Andrade foi o principal responsável por todo esse discurso ridículo e babaca que se perpetua até hoje como mantra. Agora, é direito de quem quiser continuar apreciando tal porcaria e divagando à vontade. Como dizia o saudoso Ibrahim Sued : “Os cães ladram e a caravana passa. Ademã que eu vou em frente. De leve”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.