sexta-feira, 9 de agosto de 2013

AOS AMIGOS DA ACADEMIA C&O

               1. MINHA LUTA

A lombalgia e ciatalgia que vinha sentindo há meses, levaram-me à primeira internação e a uma bateria de exames (tomografias, ressonâncias magnéticas, raios X, de sangue etc). Recebi tratamento VIP e não tive do que me queixar das equipes multidisciplinares. Considero-me uma pessoa de grande sorte, uma vez que um número inimaginável de doentes pelo mundo afora com problema semelhante não conseguem idêntico tratamento.
Desde que recebi a confirmação da notícia, jamais passei pelas fases de surpresa, negação, indignação, ódio de tudo e de todos, mas tão somente a aceitação. Agir diferentemente disso é para mim uma grande tolice e perda de tempo.

2. BALDEAÇÃO E SINA

Para que cada internação ocorra é uma mega burocracia. Isso porque além de ficar um dia inteiro completamente abandonado sobre uma maca no corredor da emergência, é necessário repetir para todo mundo (enfermeiros e médicos)  quais os medicamentos que tenho alergia e receber o pedido médico para internação. Pensam que isso é suficiente? Tolinhos. O plano de saúde é quem dirá onde há vaga disponível. Para que isso ocorra é necessário dar um milhão de telefonemas para pressionar a AMIL.É apenas mais um entre tantos episódios de minha saga.
Já passei pelo Hospital Santa Lúcia, São Lucas, São Francisco de Assis (antigo Ordem Terceira da Penitência) e novamente o São Lucas. 

3. SANTA LÚCIA

            Medicações para dor provocam prisão de ventre. Isso significa que passei dias sem evacuar a despeito de uma dieta laxativa diariamente com direito a mamão, iogurte Activia, sucos, colherinha de óleo mineral. Não foi necessária a famosa lavagem para que passasse pelo grande constrangimento.

4. SÃO LUCAS

            Numa escala de zero a dez, atingi onze de dor. Senti como se a perna esquerda fosse mergulhada em um tanque com gasolina e, a seguir, receber fogo intenso. Cheguei a pedir desculpas aos meus pais, filho e namorada por desejar morrer, mas que, até ali, aguentei o máximo que pude. Pedi-lhes que não fossem egoístas, nem sádicos e que compreendessem meu sofrimento e desejo de morrer, algo que sempre considerarei um direito meu, independentemente de qualquer lei anti-eutanásia.
Contatei pelo celular meu oncologista, explicando-lhe a situação e ele imediatamente falou com o médico plantonista.  Somente a providencial Santa Morfina foi capaz de parar tamanha dor. Seu descobridor deveria receber monumentos pelo mundo afora.

3. HOSPITAL SÃO FRANCISCO DE ASSIS : UM VERDADEIRO PESADELO

            A pior experiência porque passei foi exatamente onde o mais recente vice-deus (ou abaixo do chamado “TRÊS EM UM”) visitou durante o tal evento em que beijou criancinhas, anciãos, inválidos etc e ainda fingiu responder objetivamente tudo o que os jornalistas globais lhe perguntaram.
Havia em meu andar uma octogenária com demência senil, ou o nome pomposo que queiram dar. Ela simplesmente gritava o dia inteiro sem perder o fôlego um segundo que quer. Nem Rivotril era capaz de apagá-la algumas horas para que desse uma trégua aos demais doentes.
Tentei ligar inutilmente durante dias para a recepção e auditoria e ninguém atendeu às chamadas. Afinal, toda essa gente ia dormir muito bem em suas casas ao fim do expediente. Com isso, perdi a estabilidade emocional que sempre procurei manter. Deixei de dormir quatro noites seguidas, porque os Franciscanos não tiveram a mínima sensibilidade de colocar a maldita senhora isolada, ou pelo menos, com pacientes em coma, ou com problema semelhante.
Na noite em que finalmente recebi alta deste hospital, deixei de ouvir os gritos patológicos da pobre infeliz. Nem por isso consegui dormi horas a fio,porque ainda o fantasma dos gritos lancinantes continuavam me lembrando daquele horror.

4. COMO DIZ UMA LEI DE MURPHY: “NADA É TÃO RUIM QUE NÃO POSSA PIORAR”

            Com as dez sessões de radioterapia que fiz no Hospital São Francisco de Assis, meu número de plaquetas caiu absurdamente e, apesar de a pressão arterial em repouso, a freqüência cardíaca, a oxigenação sanguínea e temperatura corporal sempre estarem com os melhores índices, nada disso impediu o estrago. Somem-se a isso uma cervicalgia e uma sensação de anestesia do lado esquerdo da língua que me faz falar diferente e deglutir uma operação difícil. O exame que fiz nada revelou. Posso lhes garantir que não se trata de somatização ou de uma criação, mas algo real.

5. TRANSFUSÃO DE SANGUE À VISTA

Terei de receber, dentro em breve, uma transfusão de sangue (O+). Ainda bem que não sou testemunha de Jeová. Mais ressonâncias, tomografias, exames de sangue etc serão feitos sistematicamente como parte do pacote do show.
No Banco de Sangue da AMIL, situado na Rua Padre Leonel Franca, 110, 6º.andar, de segunda à sexta-feira, das 8h às 13h, Gávea, necessitarei de doação (NAPOLEÃO ARANTES MUÑOS DE FREITAS). Pessoas dos mais diversos tipos sanguíneos poderão doar, exceto diabéticas, cardíacas, com hepatite, ou gays. Não me perguntem o motivo pelo qual gays estão impedidos de doar. Ninguém precisa doar em jejum.

6. QUIMIOTERAPIA

Somente após a colocação de um cateter (para quem não sabe essa é pronúncia correta e não catéter) para receber a quimioterapia.
Quando já tiver passado por mais essa, também terei de me submeter a uma cirurgia na região lombar (artrodese – vários vídeos estão disponíveis no Youtube).

5. MEU CELULAR ESTÁ DESLIGADO

            Bem sei que para quem pretende saber notícias minhas, ligar pro meu celular é bem mais prático. Deixá-lo ligado, entretanto, não me permite ter um só momento de tranquilidade. Ele simplesmente toca como telefone de garota de programa. Isso sem contar com as chamadas para meu quarto, algo que também evito.
            Preciso manter-me focado, preferencialmente sem muitas visitas. Prefiro que não me vejam do jeito em que me encontro atualmente. Espero que compreendam e não apareçam de surpresa.
            Tão logo consiga novamente ficar de pé e caminhar, aparecerei na academia para revê-los, ok?

6. SINCERO AGRADECIMENTO

Agradeço-lhes antecipadamente por isso e também aos que, apesar de saberem que minha religião é tão somente a Ciência (não a melhor opção, mas a única em quem confio, apesar das limitações) empenham-se em orar por mim, pois sei que o fazem com toda a boa intenção do mundo.

Muito obrigado.

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