Tal como em seriados e filmes ver o teto se
deslocar, exibindo luminárias, manchas etc, tornou-se uma rotina. A cada
deslocamento do quarto para as salas de ressonância magnética e tomografia
computadorizada, a cena se repete. Passo por outras macas carregando doentes
que me olham como que desejam desesperadamente se comparar para ver quem parece
estar pior/melhor que o outro. Não se trata de minha projeção, porque não dou à
mínima pra isso. Mas, minha fantasia permite detectar tal coisa em olhares
alheios. Que psicanalistas e médiuns se ocupem disso.
O interessante é constatar que há cenas análogas
no filme “Papillon”, com o inesquecível e magistral Steve McQueen (http://pt.wikipedia.org/wiki/Steve_McQueen
). Quando os prisioneiros são avisados
para colocarem apenas suas cabeças para fora da porta da cela e terem seus cabelos
cortados, um ancião vizinho olha para o personagem de McQueen e
pergunta: - 'Como estou?' O personagem de
Steve olha-o e limita-se a dizer que o sujeito está bem. Tempos depois a cena se repete,
porém o ancião não mais aparece. Steve, então, pergunta a outro vizinho de cela
como está. O cara responde: - "Está bem."
Aliás,
meu ídolo morreu aos cinqüenta anos de mesiotelioma. E, recentemente, Dustin
Hoffman também se submeteu a uma cirurgia contra um câncer (http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2013/08/dustin-hoffman-se-submete-cirurgia-e-faz-tratamento-contra-cancer.html
) . E, se colocar aqui apenas celebridades que democraticamente foram
“premiadas”, terei, no mínimo, o dobro da paciência que possuo para listá-las.
Depois de algum tempo peregrinando
por aqui e ali, tornamo-nos conhecidos uns dos outros. O pessoal da limpeza,
copa e enfermagem, por exemplo, quase amigos de décadas. Nós, cariocas, pelo
menos temos esse jeito de ser e que tanto nos diferencia de outros irmãos
brasileiros.
Quando ontem, por exemplo, um deles
me identificou pelo prontuário, contou-me que veio conferir para ver se eu era
o mesmo. Sorrindo, cantarolei: - “Eu voltei pras coisas que deixei!"
Aliás, sorrindo e cantando “Sei lá (a vida tem
sempre razão)” fui a cada sessão de radioterapia. Irresistível lembrar-me do
sempre farto sorriso de Zezé Mota cantando “Senhora liberdade”. Também passam
por mim sem perdir licença “Batendo pelas tabelas”, de Aldir Blanc e João
Bosco, “O que é, o que é ?”, de Gonzaguina, “Vida” e “Moto-contínuo” de Chico. Este
caleidoscópio sonoro se mistura tão rapidamente em minha cabeça que é preciso
focar-me em uma música por vez.
Revezando banhos deleito com cadeira higiênica
debaixo do chuveiro (quando dá), faço como Zeca Pagodinho: Deixo a vida me levar.
A insônia ou sonos picotados também passaram a
fazer parte da rotina e como a programação na TV nessas horas consegue ainda
assim pior do que a regular, a internet é o bilhete premiado para o paraíso. Navegar,
descobrir e reforçar o que denomino de “Santíssima Trindade” (Google, Wikipedia
em inglês e Youtube) ou “Três em um, amém” também tornaram-se uma rotina
obrigatória, para não dizer vício. Graças a isso descobri que :
É fato: Quando temos uma doença qualquer, procuramos nos informar a respeito. Muitas vezes percebemos que o silêncio dos
inocentes nos revela que a ignorância muitas vezes parece ser mesmo uma bênção. O enfermo não
faz a mínima ideia do que lhe está realmente ocorrendo e com isso sofre menos,
ou simplesmente não sofre. Como me
reconheço exceção, também sei, mas não sofro. Simplesmente administro como
posso e isso me assegura pressão arterial e frequência cardíaca em repouso
estabilizadas, oxigenação sanguínea mínima de 96, temperatura média de 36° C
etc. A elevada glicemia está sendo provocada pelo corticoide, segundo o médico.
Logo, estou nem aí.
Mesmo com dieta irrestrita, todos sabemos que
pelas normas hospitalares é proibido o paciente receber comidinhas
clandestinas. Mas, há sempre como fazê-lo sem necessidade de tentar subornar ou
corromper alguém. Pensei em pizza, um sanduba do Subway, um Ovomaltine do
Bob’s, um delicioso galetinho com metade
farofa brasileira e metade com batata frita do Fórmula 2, uma musse ou bomba de chocolate ? Pois tudo isso e até Romeu e Julieta tenho.
Comer é um dos maiores prazeres da vida e como é bom quando o podemos!
http://www.letras.com.br/silvio-rodriguez/pequena-serenata-diurna
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