domingo, 11 de agosto de 2013

SEI LÁ, A VIDA TEM SEMPRE RAZÃO



Tal como em seriados e filmes ver o teto se deslocar, exibindo luminárias, manchas etc, tornou-se uma rotina. A cada deslocamento do quarto para as salas de ressonância magnética e tomografia computadorizada, a cena se repete. Passo por outras macas carregando doentes que me olham como que desejam desesperadamente se comparar para ver quem parece estar pior/melhor que o outro. Não se trata de minha projeção, porque não dou à mínima pra isso. Mas, minha fantasia permite detectar tal coisa em olhares alheios. Que psicanalistas e médiuns se ocupem disso.

O interessante é constatar que há cenas análogas no filme “Papillon”, com o inesquecível e magistral Steve McQueen (http://pt.wikipedia.org/wiki/Steve_McQueen ).  Quando os prisioneiros são avisados para colocarem apenas suas cabeças para fora da porta da cela e terem seus cabelos cortados, um ancião vizinho olha para o personagem de McQueen e pergunta: - 'Como estou?'   O personagem de Steve olha-o e limita-se a dizer que o sujeito está bem. Tempos depois a cena se repete, porém o ancião não mais aparece. Steve, então, pergunta a outro vizinho de cela como está. O cara responde: - "Está bem."

         Aliás, meu ídolo morreu aos cinqüenta anos de mesiotelioma. E, recentemente, Dustin Hoffman também se submeteu a uma cirurgia contra um câncer (http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2013/08/dustin-hoffman-se-submete-cirurgia-e-faz-tratamento-contra-cancer.html ) . E, se colocar aqui apenas celebridades que democraticamente foram “premiadas”, terei, no mínimo, o dobro da paciência que possuo para listá-las.

         Depois de algum tempo peregrinando por aqui e ali, tornamo-nos conhecidos uns dos outros. O pessoal da limpeza, copa e enfermagem, por exemplo, quase amigos de décadas. Nós, cariocas, pelo menos temos esse jeito de ser e que tanto nos diferencia de outros irmãos brasileiros.

       Quando ontem, por exemplo, um deles me identificou pelo prontuário, contou-me que veio conferir para ver se eu era o mesmo. Sorrindo, cantarolei: - “Eu voltei pras coisas que deixei!"

      Aliás, sorrindo e cantando “Sei lá (a vida tem sempre razão)” fui a cada sessão de radioterapia. Irresistível lembrar-me do sempre farto sorriso de Zezé Mota cantando “Senhora liberdade”. Também passam por mim sem perdir licença “Batendo pelas tabelas”, de Aldir Blanc e João Bosco, “O que é, o que é ?”, de Gonzaguina, “Vida” e “Moto-contínuo” de Chico. Este caleidoscópio sonoro se mistura tão rapidamente em minha cabeça que é preciso focar-me em uma música por vez.

Revezando banhos deleito com cadeira higiênica debaixo do chuveiro (quando dá), faço como Zeca Pagodinho: Deixo a vida me levar.

A insônia ou sonos picotados também passaram a fazer parte da rotina e como a programação na TV nessas horas consegue ainda assim pior do que a regular, a internet é o bilhete premiado para o paraíso. Navegar, descobrir e reforçar o que denomino de “Santíssima Trindade” (Google, Wikipedia em inglês e Youtube) ou “Três em um, amém” também tornaram-se uma rotina obrigatória, para não dizer vício. Graças a isso descobri que :



É fato: Quando temos uma doença qualquer, procuramos nos informar a respeito. Muitas vezes percebemos que o silêncio dos inocentes nos revela que a ignorância muitas vezes parece ser mesmo uma bênção. O enfermo não faz a mínima ideia do que lhe está realmente ocorrendo e com isso sofre menos, ou simplesmente não sofre.  Como me reconheço exceção, também sei, mas não sofro. Simplesmente administro como posso e isso me assegura pressão arterial e frequência cardíaca em repouso estabilizadas, oxigenação sanguínea mínima de 96, temperatura média de 36° C etc. A elevada glicemia está sendo provocada pelo corticoide, segundo o médico. Logo, estou nem aí.

Mesmo com dieta irrestrita, todos sabemos que pelas normas hospitalares é proibido o paciente receber comidinhas clandestinas. Mas, há sempre como fazê-lo sem necessidade de tentar subornar ou corromper alguém. Pensei em pizza, um sanduba do Subway, um Ovomaltine do Bob’s,  um delicioso galetinho com metade farofa brasileira e metade com batata frita do Fórmula 2, uma musse ou bomba de chocolate ?  Pois tudo isso e até Romeu e Julieta tenho. Comer é um dos maiores prazeres da vida e como é bom quando o podemos!

http://www.letras.com.br/silvio-rodriguez/pequena-serenata-diurna


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