terça-feira, 24 de maio de 2011

MAIS UMA DECEPÇÃO PARA OS AMANTES DA PSICANÁLISE

Dentre tudo o que estudei sobre psicologia, a psicanálise fascinou-me, contagiando-me nos anos 80 e 90. Após os primeiros contatos, passei a autodidata, lendo tudo o que pude e quis sobre Freud, assistindo a documentários e filmes sobre sua vida e casos que estudou/tratou.
Meu entusiasmo durou até que me deparei com um lado nada digno de Freud: fraudes em certos casos. Foi água fria na fervura. De lá pra cá o fascínio cedeu lugar ao desprezo.
Em outro post citei,por exemplo, as matérias "Freud: pesquisadores contestam o mito", publicada pelo Globo,7/3/1990,p.35 e "A psicanálise não é uma Ciência. Mas, quem se importa?", de Roberto Henrique Amorim de Medeiros, revista Psicologia Ciência e Profissão, 1998,18(3), p.22-27. Citei também diversos links sobre casos em que Freud descaradamente falseou resultados. 
Depois disso, ficou ainda mais fácil reforçar as críticas sobre o pai da psicanálise, pois contamos com o Deus Google, que nos realiza desejos num átimo. E não é que me deparei com essa interessante matéria? É um prazer compartilhá-la com vocês.
DEVE-SE ACABAR COM A PSICANÁLISE?
Foi lançado no Brasil, só agora em 2011, O Livro Negro da Psicanálise, publicado em Paris em 2005. A antologia de ensaios denuncia a psicanálise como um embuste e Freud como um charlatão. O livro certamente fará muito ruído chez nous, afinal sempre estamos na rabeira dos grandes debates. Se a pergunta entre americanos é se deve-se ou não acabar com os doutorados, em Paris a pergunta é outra, assim enunciada pelo Nouvel Observateur: "Deve-se acabar com a psicanálise?"
Qualquer uma das duas questões ainda causa perplexidade nesta terra de papagaios. No Estadão de hoje, lemos entrevista com a editora franco-argelina Catherine Meyer, responsável pela antologia. Interrogada sobre se Freud era um mentiroso, a moça não tem papas na língua:
- Sim, porque ele fraudou seus resultados. Não foi o único; há outros a trapacear no meio científico. Mas você sabe como as coisas funcionam na ciência: define-se uma hipótese, mesmo que inacreditável - como Édipo e o amor de um filho pela mãe e a pedra angular de nossa vida psíquica. Eis uma hipótese! Um filho tem desejo e quer ter relações sexuais com sua mãe. É o complexo de Édipo. Quando se faz uma hipótese científica, a seguir passa-se à fase de verificação. Procede-se um percurso de pesquisa para constatar a hipótese pela sua eficiência. Quando se imagina um medicamento para a tuberculose, ele é testado em várias pessoas. A seguir, usamos a lixeira para jogar fora todas as hipóteses refutadas. O que os teóricos explicam muito bem no Livro Negro da Psicanálise é que Freud lançou hipóteses e elas nunca deixaram de ser apenas isso: hipóteses. Ele traficou a realidade para confirmar suas hipóteses.
Claro que o livro vai gerar acerbos protestos, afinal demole com o ganha-pão de não poucos vigaristas em Pindorama. Mas o debate é antigo e já tem pelo menos 40 anos. Em 1965, os cientistas americanos Edward e Cathey Pinckney publicaram The Fallacy of Freud and Psychoanalysis, traduzida em 1970 no Brasil como Psicanálise, a Mistificação do Século, pela Edigraf, que reduzia Freud à condição de vigarista. No Brasil, Silva Mello publicou, em 1967, um gordo ensaio de 536 páginas, intitulado Ilusões da Psicanálise, publicado pela Civilização Brasileira.
Escrevem os Pinckney:
- Não existe uma única prova científica em apoio de que a psicanálise – definida como Freud como uma forma de tratamento da doença mental – tenha curado alguém ou possa curar uma doença! Ao contrário, existem numerosas observações documentadas demonstrativas não apenas dos insucessos da psicanálise, mas ainda, o que é pior, das suas conseqüências prejudiciais.
- O que mais contribui para comprovar a mistificação psicanalítica é o fato de os psicanalistas se esforçarem desesperadamente para rotular de ciência o seu método de exploração, sem contudo preencher nenhum dos postulados estabelecidos e aceitos pelos cientistas de todo o mundo, os únicos capazes de permitir-lhe o reconhecimento como verdadeiramente científica.
Isto foi escrito em 1965, há 46 anos. Os autores continuam desancando Freud por mais 218 páginas.
Estes livros repercutiam denúncias anteriores da grande vigarice do século XX. A psicanálise, mal surgiu, foi violentamente contestada. Em Gog, publicado em 1932, Giovanni Papini via Freud como um médico fracassado com pendores literários. Incapaz para a medicina, Freud dedicou-se à ficção. Assim nasceu a psicanálise. Mr. Goggius, o personagem do escritor florentino, é um milionário americano que a certa altura de sua vida quis conhecer o mundo e sai a viajar para ouvir as maiores personalidades da política, da ciência e das letras de sua época. Na entrevista com Freud, diz o criador da psicanálise:
- Que minha cultura é essencialmente literária demonstram-no, abundantemente, as minhas contínuas citações de Goethe, Grilpazer, Heine e outros poetas. A forma de meu espírito está inclinada para o ensaio, para o paradoxo, para o dramatismo, e nada tem da rigidez pedante e técnica do verdadeiro homem de ciência. Há uma prova irrefutável: em todos os países em que a psicanálise penetrou, foi ela mais bem entendida e aplicada pelos escritores e pelos artistas do que pelos médicos. Por outro lado, meus livros se assemelham muito mais a obras de imaginação do que a tratados de patologia. Os meus estudos sobre a vida cotidiana e sobre os movimentos do espírito são verdadeira e genuína literatura, e em Totem e Tabu também me exercitei na novela histórica. O meu desejo mais antigo e tenaz seria escrever verdadeiras novelas: possuo um tesouro de material em primeira mão que faria a fortuna de cem novelistas. Mas receio que agora seja muito tarde.
- Seja como for, soube, transpondo as dificuldades, vencer o meu destino e logrei o meu sonho: continuar a ser um literato, embora com as aparências de médico. Em todos os grandes homens de ciência há o sopro da fantasia, mãe das intuições geniais; mas nenhum se propôs, com eu, a traduzir em teorias científicas as inspirações da literatura moderna.
Isto escrevia Papini em 1932. Há quase oitenta anos. Antes da morte de Freud.
Ano passado, em livro que já comentei, Le crépuscule d’une idole - L’affabulation freudienne, Michel Onfray atacava o ídolo em que teria se convertido Freud e a vigarice que constitui a psicanálise. Era o que eu dizia nos anos 70. Pena que era gaúcho e não galo.
No livro, publicado em 2010, o autor acusa o pai da psicanálise de ser mentiroso, fracassado e defensor de regimes totalitários. A psicanálise é comparável a uma religião e sua capacidade de curar as pessoas é semelhante a da homeopatia. Freud teria tranformado seus próprios "instintos e necessidades fisiológicas" em uma doutrina com pretensão de ser universal. Mas, para Onfray, a psicanálise seria "uma disciplina verdadeira e justa no que diz respeito a Freud e ninguém mais".
Freud fracassou na cura de pacientes que ele mesmo atendeu, mas ocultou ou alterou suas histórias clínicas para dar a impressão de que o tratamento havia sido bem sucedido. Ele afirma, por exemplo, que Sergei Konstantinovitch, indicado por Freud como "o homem dos lobos", continuou fazendo psicanálise mais de meio século depois de ter sido supostamente curado por Freud. E diz que Bertha Pappenheim, conhecida como "Anna O." e apresentada por Freud como um caso em que o tratamento contra histeria e alucinações funcionou, continuou tendo recaídas.
"A psicanálise cura tanto quanto a homeopatia, o magnetismo, a radiestesia, a massagem do arco do pé ou o exorcismo feito por um sacerdote, quanto uma oração diante da gruta de Lourdes”, afirmou Onfray, em debate promovido pelo Nouvel Observateur. "Sabemos que o efeito do placebo constitui 30% da cura de um medicamento", acrescentou. "Por que a psicanálise escaparia desta lógica?"
Nada de novo sob o sol.
http://cristaldo.blogspot.com/
Outros links:
'Coaching' emocional

Neurociência dá respaldo às psicoterapias, usadas para a solução rápida de transtornos

Publicada em 29/05/2011 às 09h05m
Viviane Nogueira
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Neurônios: a ciência mostra que as terapias, quando bem feitas, provocam alterações neurológicas positivas. Reprodução
RIO - A imagem é um clássico das tiras de humor: um paciente desesperado fala sem parar no divã enquanto o terapeuta faz a lista do mercado, dorme ou fantasia alguma outra coisa. Exagero, é claro, mas na visão de um grupo de especialistas, a proposta para este paciente transtornado seria um cardápio de psicoterapias, com profissionais mais ativos, que dão diagnóstico, sugerem soluções e programam um tratamento a curto prazo. Uma espécie de coaching emocional. Para eles, a psicanálise tradicional é um instrumento de autoconhecimento para pessoas saudáveis debaterem questões filosóficas. Para resolver transtornos, a melhor pedida seriam as psicoterapias.
- A neurociência mostra que as terapias, quando bem feitas, trazem modificações neurológicas. Se eu tenho instrumentos para fazer essas mudanças, por que não fazê-las de forma mais rápida? - questiona o psiquiatra Fábio Barbirato, coordenador dos departamentos de Psiquiatria Infantil da Santa Casa de Misericórdia e da Associação de Psiquiatria do Rio, além de membro da Academia Americana de Psiquiatria Infantil.
De 2 de junho a 14 de julho ele coordena o curso "A relação entre neurociência e psicanálise - de Kandel a Freud", na Casa do Saber, no Rio. Em seis aulas, nomes ligados à psiquiatria, psicologia e neurociência como Vera Lemgruber, Fátima Vasconcellos, Analice Giglioti e Mário Juruena, entre outros, vão contar, para um público leigo, o que é possível extrair dessa relação, além de discutir os conceitos das diversas psicoterapias disponíveis para o tratamento de transtornos de comportamento.
- A neurociência permitiu que a psicanálise, que era vista como a única forma de tratamento, passasse a ser uma das opções, e validou as outras - diz a psiquiatra e psicóloga Vera Lemgruber, coordenadora do setor de Psicoterapia da Santa Casa de Misericórdia do Rio.
- Sabemos que, para determinados transtornos, sem os medicamentos chamados buffers (amortecedores), é muito difícil. É como se eles nos ajudassem a passar pelos buracos da estrada da vida. Isso não vai consertar os buracos, mas dá pra passar por eles sem levar tantos trancos e tendo um pouco mais de energia para, numa psicoterapia, questionar o rumo da estrada. Esse trabalho faz com que você reaprenda, seus neurônios fazem novas conexões - explica.
Amortecedores de emoções mais fortes
Ao comprovar o funcionamento do cérebro, a neurociência deu respaldo às psicoterapias que antes se debatiam com as teorias de Freud. Os neurologistas brasileiros Jorge Moll Neto e Ricardo de Oliveira-Souza, por exemplo, explicaram as áreas responsáveis pelo juízo moral e definiram o cérebro dos psicopatas.
- Hoje sabemos, através de testes e exames realizados neste trabalho, que pessoas com hipofuncionamento do lobo frontal têm incapacidade de fazer julgamentos morais e, se houver uma lesão cerebral nessa área, há esse tipo de prejuízo - diz Vera.
Os psiquiatras Fátima Vasconcellos, Fábio Barbirato e Vera Lemgruber: curso na Casa do Saber. Foto: Ana Branco
Com tipos de mapeamento como este, tratamentos para síndrome do pânico, depressão, ansiedade e transtornos alimentares, entre outros, podem ser feitos com um foco específico e em menos tempo para que a pessoa possa retomar a vida. Da mesma forma, questões de melancolia e angústia servem melhor à psicanálise, na opinião dos especialistas.
- Ninguém discute as contribuições da psicanálise na construção de uma teoria de funcionamento cerebral. Mas hoje se fala muito de uma psicoterapia psicodinâmica. Se uma pessoa tem estresse pós-traumático depois dessas chuvas da região serrana do Rio, a gente tem que ser capaz de encontrar uma técnica para tirar a pessoa do buraco. Há necessidade de lidar com a realidade do imediato - diz Fátima Vasconcellos, mestre em Psiquiatria pela UFRJ, professora de Psiquiatria da Universidade Gama Filho e presidente da Associação de Psiquiatria do Rio de Janeiro.
O efeito carambola
Diante da polêmica de que dessa forma se trata o sintoma e não a causa do problema, Vera Lemgruber recorre ao termo efeito carambola para explicar os resultados da técnica focal. A expressão é usada no jogo de sinuca para definir a jogada em que uma determinada bola é atingida pelo taco e, ao se movimentar, atinge outras bolas que não haviam sido tocadas diretamente:
- Se você diagnosticar e trabalhar com foco num problema específico, quando ele for resolvido pode resolver ainda outras áreas sem o coach ao seu lado. Uma síndrome de pânico pode ser curada na maior facilidade quando não representa outras coisas, mas muitas vezes é a expressão patológica de transtorno de dependência - explica.
No caso de crianças o problema é ainda mais grave, já que a infância é curta e não pode ser desperdiçada em tratamentos longos ou errados.
- Hoje se fala muito em hiperatividade e transtorno de déficit de atenção, mas depressão e ansiedade atingem um número até três vezes maior de crianças, com sintomas muito mais complicados. A criança muitas vezes está agitada na sala porque o pai vai buscá-la no fim da aula e fica desatenta. Ela não é hiperativa, tem um quadro de ansiedade. Um bom terapeuta tem que saber identificar isso - exemplifica Fábio Barbirato, que no curso vai justamente explicar aos pais sobre desenvolvimento normal, dizer por exemplo o que esperar de uma criança de 5 anos à luz da neurociência:
- Se os pais esperam que a criança arrume o quarto e faça letra cursiva nessa idade estão errados, porque ela não tem capacidade neurocientífica pra isso, uma região do cérebro precisa estar desenvolvida pra isso e ainda não está. Ao fazer isso os pais podem desencadear um estresse no hipocampo e um quadro de ansiedade.
Já em adultos Fátima Vasconcellos cita o caso do músico Herbert Vianna, paralisado depois de um acidente de ultraleve em 2001:
- Como ele sempre foi muito criativo, o cérebro passa por essa questão da neuroplasticidade: quanto mais se usa, mais ele se desenvolve, mais conexões ele faz. Se eu perder a fala hoje, meu cérebro será estimulado a criar outro circuito de fala para se sobrepor ao que eu perdi.
 http://oglobo.globo.com/vivermelhor/mat/2011/05/29/neurociencia-da-respaldo-as-psicoterapias-usadas-para-solucao-rapida-de-transtornos-924558059.asp#ixzz1NpK3eEYB

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